Na tarde desta sexta-feira, o III Congresso Internacional de Oncologia Pediátrica do GRAACC deu continuidade aos debates sobre as principais tendências da oncologia pediátrica. A mesa, coordenada pela Dra. Adriana Seber, trouxe contribuições importantes sobre o tratamento das leucemias, fatores de risco, como a doença refratária, e o cenário da busca por um doador de medula óssea.
Uma das convidadas foi a Dra. Carla Nolasco, médica da equipe de TMO pediátrico do Hospital Samaritano, que apresentou o tema “Estratégias para prevenir recaída da LLA após transplante”.
A leucemia linfoide aguda (LLA) é o tipo mais comum na infância e, atualmente, a maior parte das crianças pode alcançar a cura com quimioterapia combinada e terapias direcionadas ao risco. No entanto, a LLA continua sendo uma das principais indicações para o transplante de medula óssea (TMO).
A equipe indica o transplante principalmente em situações de alto risco, resposta inadequada ao tratamento, doença residual mensurável persistente ou recaída. Essa decisão também depende do subtipo da leucemia e da resposta ao tratamento.
No GRAACC, a indicação do transplante é cada vez mais individualizada. Nesse sentido, a equipe considera tanto o subtipo genético da leucemia quanto a velocidade de resposta ao tratamento.
Um paciente pode estar em “remissão” porque a microscopia convencional já não detecta células leucêmicas. Mesmo assim, algumas células de leucemia ainda podem permanecer no organismo. É o que se chama de doença residual mensurável (DRM).
Técnicas mais sensíveis, como a citometria de fluxo e os métodos moleculares, conseguem detectar essas células. A DRM pode permanecer mesmo quando a medula aparenta estar em remissão.
Além disso, a velocidade de resposta ao tratamento, combinada aos achados genéticos e moleculares, ajuda a diferenciar pacientes com prognóstico mais favorável daqueles que apresentam maior risco de evolução desfavorável.
O ideal é realizar o TMO quando a LLA está em remissão, preferencialmente sem doença residual mensurável. Por isso, a presença de DRM antes do transplante representa um importante marcador de maior risco de recaída após o TMO.
Antes do transplante, a equipe busca chegar ao procedimento com a menor quantidade possível de leucemia.
Na prática, quando uma criança tem indicação de TMO, os profissionais avaliam cuidadosamente as características genéticas da LLA, a resposta à quimioterapia, a DRM, a presença de doença no sistema nervoso central, o histórico de recaída, a disponibilidade e o tipo de doador e a condição clínica do paciente.
Nesse contexto, um estudo do qual a Dra. Adriana Seber participa ressalta que a fase da doença no momento do transplante tem grande impacto sobre as chances de cura. Quanto mais avançada estiver a leucemia, maior tende a ser tanto o risco de recaída quanto a toxicidade relacionada ao transplante.
O transplante alogênico tem uma característica particularmente importante. Além da quimioterapia utilizada para preparar o paciente, existe o chamado efeito enxerto-contra-leucemia.
De forma simplificada, as células imunológicas provenientes do doador podem reconhecer células leucêmicas que eventualmente permaneceram no organismo e destruí-las. Dessa maneira, esse efeito contribui para o potencial curativo do transplante.
Nesse cenário, vale destacar um trabalho multicêntrico brasileiro publicado em 2025, que incluiu o GRAACC-Unifesp entre os centros participantes.
O estudo avaliou 439 crianças e adolescentes com LLA submetidos a transplante hematopoético entre 2010 e 2020. A sobrevida global em cinco anos foi de 52,4%, enquanto a sobrevida livre de eventos chegou a 51,7%.
Além disso, depois dos primeiros 100 dias, a recaída da leucemia respondeu por 76,3% das mortes. O dado reforça como o controle da recaída continua sendo um dos grandes desafios após o transplante.
A LLA refratária ocorre quando a doença permanece ativa apesar do tratamento. Antes do TMO, a equipe normalmente busca controlar a leucemia e obter a melhor resposta possível, já que a presença de doença ativa aumenta significativamente o risco de recaída após o transplante.
Na prática, quando a LLA é refratária, a equipe geralmente tenta primeiro alcançar uma nova resposta ou remissão. Para isso, pode utilizar estratégias de resgate que incluem quimioterapia, imunoterapia — como blinatumomabe ou inotuzumabe na LLA-B — e, em situações apropriadas, CAR-T.
Assim, essa resposta pode funcionar como uma “ponte” para o TMO.
Um ponto importante é que não estar em remissão morfológica antes do transplante geralmente representa uma situação desfavorável. Na população pediátrica, a recomendação é não realizar o TMO de forma rotineira em pacientes que não alcançaram remissão morfológica, salvo em situações excepcionais, como protocolos experimentais bem definidos.
Dessa forma, prevenir a recaída após o TMO envolve diferentes etapas: avaliar o risco individual, controlar a doença antes do transplante, acompanhar a doença residual mensurável e definir a estratégia mais adequada para cada paciente.
A programação também conta com a participação de especialistas representantes da Sociedade Brasileira de Transplante de Medula Óssea (SBTMO), Sociedade Brasileira de Oncologia Pediátrica (SOBOPE), Sociedade Internacional de Oncologia Pediátrica (SIOP) e Sociedade Brasileira de Neurocirurgia Pediátrica (SBNPed).
Saiba mais em: https://congressograacc.com.br/graacc2026
Acompanhe a cobertura ao vivo no @instagraacc
Por Andrea Garbim

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