A prevenção de infecções em oncologia pediátrica é uma parte essencial do cuidado de crianças e adolescentes em tratamento contra o câncer. Em determinados momentos da terapia, a imunidade pode ficar comprometida. Por isso, medidas de proteção dentro e fora do ambiente hospitalar ganham ainda mais importância.
Da higiene das mãos à capacitação das equipes, diferentes estratégias contribuem para tornar a assistência mais segura. Além disso, o acompanhamento contínuo dos riscos permite identificar situações que exigem atenção.
Esses cuidados estiveram no centro do Simpósio de Infecção em Imunossuprimidos, realizado durante o III Congresso Internacional de Oncologia Pediátrica do GRAACC.
A mesa reuniu especialistas do Brasil e dos Estados Unidos para discutir três aspectos que se complementam: a construção de uma cultura de prevenção, a adesão sustentável à higiene das mãos e os aprendizados obtidos com a investigação e o controle de surtos.
Criar um ambiente seguro envolve mais do que estabelecer protocolos. Por isso, é preciso fazer com que as práticas de prevenção de infecções façam parte da rotina das equipes e sejam incorporadas de forma consistente ao cuidado.
Nesse contexto, esse foi o tema da palestra “Building a Culture of Infection Prevention in Pediatric Oncology: Educational Strategies That Work”, apresentada por Miguela Caniza, do St. Jude Children’s Research Hospital, nos Estados Unidos. A especialista dirige o Programa de Doenças Infecciosas do St. Jude Global.
Durante a apresentação, Caniza abordou o papel da educação na construção de uma cultura voltada à segurança. Além disso, discutiu estratégias para ajudar profissionais de diferentes áreas a incorporar práticas preventivas ao cotidiano da oncologia pediátrica.
Nesse sentido, a especialista destacou que a capacitação precisa considerar diferentes formas de aprendizagem. Entre as estratégias apresentadas, estiveram modelos híbridos, que combinam atividades virtuais e presenciais, aprendizagem baseada em casos, simulações, conteúdos digitais e materiais educativos de consulta rápida.
Ao mesmo tempo, Caniza reforçou que a prevenção e o controle de infecções não devem ficar restritos aos especialistas da área. Para isso, a capacitação precisa alcançar os diferentes profissionais envolvidos no cuidado e fazer parte da cultura institucional.
“É muito importante avaliar e identificar as necessidades de formação e capacitação das equipes. Não existe apenas uma estratégia: precisamos utilizar diferentes formas de ensinar”, destacou Miguela.
Dessa forma, a educação deixa de ser uma ação pontual e passa a integrar um processo contínuo de fortalecimento das práticas de prevenção.
Entre as medidas de prevenção de infecções em oncologia pediátrica, a higiene das mãos ocupa um lugar central. No entanto, o desafio não está apenas em conhecer a técnica correta. Também é necessário transformar esse cuidado em um hábito permanente.
Na sequência, Paula Gurgel da Fonseca, do GRAACC, apresentou a palestra “Hand Hygiene in Pediatric Oncology: From Multimodal Strategy to Sustainable Adherence”. Durante a exposição, discutiu como fortalecer a adesão e manter essa prática incorporada à rotina assistencial.
No GRAACC, o Serviço de Controle de Infecção Hospitalar (SCIH) atua continuamente na orientação dos profissionais e na realização de ações educativas.
Além disso, a higiene das mãos também envolve pacientes, familiares e acompanhantes. Durante a permanência no hospital, eles recebem orientações sobre os momentos em que esse cuidado deve ser realizado, como na entrada e na saída dos quartos.
Assim, uma medida simples passa a fazer parte de um esforço coletivo para aumentar a segurança durante o tratamento.
Nesse contexto, Paula destacou a importância da estratégia multimodal, que reúne diferentes frentes para favorecer a adesão. Entre elas, estão facilitar o acesso aos produtos para higiene das mãos, oferecer educação e treinamento, fornecer feedback às equipes, utilizar comunicação visual e fortalecer um ambiente voltado à segurança.
Ao mesmo tempo, a especialista chamou a atenção para a necessidade de manter os resultados ao longo do tempo. Segundo ela, a estratégia pode aumentar a adesão, mas a sustentabilidade depende de adaptação à realidade de cada serviço e de continuidade das ações.
No GRAACC, por exemplo, a equipe revisou sua estratégia multimodal e passou a envolver de forma mais próxima as lideranças e diferentes categorias profissionais. Com isso, a iniciativa incluiu acompanhamento e devolutivas frequentes para as equipes.
“Não existe uma solução única. É uma combinação de múltiplos fatores. Precisamos fazer com que a adesão seja uma prioridade para todos e transformar a higiene das mãos em um propósito coletivo”, afirmou Paula.
A vigilância contínua é outra frente importante na prevenção e no controle de infecções. Identificar situações fora do padrão, investigar possíveis causas e adotar medidas de controle são etapas importantes para proteger pacientes e profissionais.
O tema foi apresentado por Bruno Oliveira e Lima, infectologista pediátrico do Hospital da Criança de Brasília José Alencar, no Distrito Federal. Na palestra “Outbreak Investigation and Control in Pediatric Oncology: Lessons Learned from a Real-World Experience”, o especialista compartilhou aprendizados obtidos a partir de uma experiência prática.
Bruno apresentou um surto identificado a partir da vigilância microbiológica em uma unidade de terapia intensiva. Ao perceber o surgimento de novos pacientes colonizados por uma bactéria resistente, a equipe decidiu iniciar uma investigação e adotar medidas de controle.
Entre as primeiras ações, o hospital restringiu novas admissões na unidade, realizou o rastreamento dos pacientes, coletou amostras ambientais e organizou os pacientes de acordo com os resultados encontrados.
Ao longo da investigação, a equipe também revisou processos assistenciais e identificou situações que precisavam de ajustes. Além disso, passou a realizar monitoramento e feedbacks mais frequentes com os profissionais.
“Os surtos são situações muito complexas. As decisões que tomamos durante o manejo têm implicações para a instituição, para os pacientes, para as equipes assistenciais e para o controle de infecções”, destacou Bruno.
Nesse contexto, a experiência mostrou como vigilância, investigação, revisão de processos e resposta rápida ajudam a orientar as medidas necessárias para controlar uma situação de risco.
Os temas discutidos no Congresso também fazem parte de iniciativas desenvolvidas pelo GRAACC para fortalecer a segurança assistencial e disseminar conhecimento sobre prevenção e controle de infecções.
Em 2025, o hospital foi escolhido pelo St. Jude Children’s Research Hospital para sediar um curso intensivo dedicado ao tema. A capacitação reuniu 31 profissionais de 23 hospitais brasileiros.
Durante o encontro, foram abordados assuntos como vigilância de infecções, investigação de surtos, higiene das mãos, cuidados com cateteres e controle de endemias e epidemias.
O corpo docente reuniu especialistas do GRAACC, de outras instituições brasileiras, do México e do St. Jude. A iniciativa teve como objetivo compartilhar práticas que pudessem contribuir para aprimorar o controle de infecções em diferentes hospitais do país.
Além disso, a parceria marcou a realização do primeiro curso do St. Jude sobre prevenção de infecções oferecido em língua portuguesa e na América Latina.
No dia a dia do nosso hospital, esse trabalho se soma à atuação do Serviço de Controle de Infecção Hospitalar, às ações educativas e aos protocolos voltados à segurança dos pacientes.
As discussões apresentadas no Simpósio mostram que a prevenção de infecções em oncologia pediátrica não depende de uma única medida.
Educação, higiene das mãos, vigilância, investigação de eventos e adesão contínua aos protocolos fazem parte de um trabalho coletivo. Nesse processo, profissionais, pacientes e famílias têm papéis importantes.
Incorporar essas práticas à rotina contribui para fortalecer a segurança em diferentes etapas da assistência. Mais do que seguir protocolos, o desafio é fazer da prevenção uma parte permanente da cultura de cuidado.
Como destacou Paula Gurgel durante a apresentação, “o propósito é coletivo”. Quanto mais as equipes trabalham juntas, maiores são as possibilidades de fortalecer a prevenção de infecções e transformar essas práticas em parte permanente da assistência.
A programação também conta com a participação de especialistas representantes da Sociedade Brasileira de Transplante de Medula Óssea (SBTMO), Sociedade Brasileira de Oncologia Pediátrica (SOBOPE), Sociedade Internacional de Oncologia Pediátrica (SIOP) e Sociedade Brasileira de Neurocirurgia Pediátrica (SBNPed).
Saiba mais em: https://congressograacc.com.br/graacc2026
Acompanhe a cobertura ao vivo no @instagraacc
Por Ludmila Piatek

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