Sequenciamento genético, estudos sobre a biologia dos tumores, inteligência artificial, impressão 3D e ferramentas digitais para acompanhar quem já terminou o tratamento. Diferentes frentes da inovação estiveram em debate na programação Medicina do Futuro, realizada durante o III Congresso Internacional de Oncologia Pediátrica do GRAACC.
Com especialistas do Brasil, Canadá e Estados Unidos, os encontros discutiram como ciência, tecnologia e análise de dados podem contribuir para o futuro da oncologia pediátrica. Os temas foram desde tratamentos mais individualizados e planejamento cirúrgico até o acompanhamento de crianças e adolescentes após o câncer.
Uma das transformações da oncologia está na possibilidade de conhecer o tumor para além de sua localização e aparência. O sequenciamento e outras análises moleculares permitem identificar alterações presentes nas células tumorais. Dessa forma, ajudam a compreender melhor as características de cada doença.
O tema foi abordado pelo oncologista pediátrico Daniel Morgenstern, do Hospital for Sick Children (SickKids), no Canadá, na palestra Precision Paediatric Oncology: from sequencing to intervention.
Morgenstern atua no desenvolvimento de novas terapias para cânceres pediátricos de difícil tratamento e dirige o programa de Novos Agentes e Terapias Inovadoras do SickKids. Entre as iniciativas das quais participa estão estudos que utilizam o perfil molecular dos tumores para buscar terapias direcionadas a alterações específicas.
Na prática, a medicina de precisão reúne informações clínicas e biológicas para buscar estratégias mais adequadas às características de cada doença. No entanto, o desafio vai além de identificar uma alteração molecular. É preciso compreender quais descobertas podem, de fato, ser transformadas em possibilidades de tratamento.
“Conhecer o que acontece na superfície das células pode ser tão importante quanto conhecer as mutações dentro delas”, ressalta Morgenstern.
Compreender melhor a biologia da doença também tem papel importante no desenvolvimento de novos tratamentos. Isso é especialmente relevante para pacientes com tumores de alto risco.
Esse foi o foco da oncologista pediátrica norte-americana Rochelle Bagatell, do Children’s Hospital of Philadelphia (CHOP), na apresentação Biology work in high risk trials.
Especialista em tumores sólidos, com atuação principalmente em neuroblastoma e sarcomas, Bagatell participa de estudos clínicos voltados ao neuroblastoma. As pesquisas nessa área ajudam a compreender melhor as características biológicas da doença. Além disso, contribuem para aperfeiçoar a classificação de risco e investigar novas abordagens terapêuticas.
Incorporar estudos biológicos aos ensaios clínicos permite avaliar não apenas se determinado tratamento funciona. Também ajuda a compreender quais pacientes podem se beneficiar de determinada abordagem e por quê.
“Entender melhor a biologia dos tumores pode nos ajudar a agrupar os pacientes de forma diferente e pensar nas terapias mais adequadas”, reforçou.
A inteligência artificial também esteve entre os temas relacionados ao futuro da oncologia pediátrica. Na palestra “A Inteligência Artificial Vai Mudar a Forma Como Tratamos o Câncer Infantil?”, Sandra Shiramizo, da área de Projetos e Processos e de Registro Hospitalar do GRAACC, discutiu possibilidades e desafios relacionados ao uso da tecnologia na saúde.
Mais do que automatizar processos, a inteligência artificial pode ampliar a capacidade de analisar grandes volumes de informações e identificar padrões. Além disso, pode apoiar profissionais em atividades de pesquisa e tomada de decisão.
Ao mesmo tempo, sua aplicação na saúde envolve desafios importantes. Entre eles estão a qualidade dos dados, a validação das ferramentas, a segurança das informações e a responsabilidade humana sobre as decisões.
“A gente precisa pensar em que problema quer resolver com a inteligência artificial. Não é tudo que vai servir para todo mundo”, reforça Sandra.
A inovação também chega diretamente ao planejamento de procedimentos cirúrgicos. O tema foi apresentado por Jairo Greco Garcia, cirurgião ortopédico do GRAACC, na palestra “Impressão 3D para planejamento cirúrgico ortopédico”.
A partir de exames de imagem, a tecnologia permite criar modelos físicos que reproduzem a anatomia de cada paciente. Na ortopedia, esses recursos podem ajudar o cirurgião a visualizar estruturas complexas e estudar previamente a região que será operada. Também permitem planejar diferentes etapas do procedimento.
Em cirurgias que envolvem estruturas ósseas complexas, compreender a relação entre a lesão e as áreas ao seu redor é uma etapa importante do planejamento. Nesse contexto, a impressão 3D oferece uma representação individualizada da anatomia do paciente.
Assim, a tecnologia se soma a outros recursos que ajudam a personalizar a abordagem cirúrgica de acordo com as características de cada caso.
O futuro da oncologia pediátrica também envolve o cuidado depois do tratamento. Nesse contexto, à medida que mais crianças e adolescentes se tornam sobreviventes do câncer, cresce a importância do acompanhamento a longo prazo.
Esse cuidado busca identificar possíveis efeitos tardios relacionados à doença e às terapias recebidas. Por isso, novas ferramentas também vêm sendo utilizadas para apoiar os pacientes nessa etapa.
Entre esses recursos, o oncologista Matthew J. Ehrhardt, do St. Jude Children’s Research Hospital, nos Estados Unidos, apresentou aplicativos, redes sociais e o Passport for Care.
Ehrhardt desenvolve pesquisas voltadas aos efeitos tardios do tratamento e ao acompanhamento de longo prazo de sobreviventes do câncer infantil.
O Passport for Care é uma ferramenta digital que reúne informações sobre o tratamento realizado. Além disso, oferece recomendações individualizadas relacionadas ao acompanhamento da saúde e aos possíveis efeitos tardios.
No GRAACC, por sua vez, esse cuidado também faz parte da assistência. A Clínica Multiprofissional de Atendimento aos Pacientes Fora de Tratamento (CForT) acompanha sobreviventes do câncer infantojuvenil. Dessa maneira, o trabalho tem foco na identificação de possíveis sequelas e na qualidade de vida a longo prazo.
“Qualquer forma que tivermos de alcançar e reengajar os sobreviventes é importante”, concluiu.
De forma geral, os temas apresentados mostram que a inovação no câncer infantil não está ligada a uma única tecnologia. Ela envolve compreender melhor a biologia da doença, identificar novas possibilidades terapêuticas e planejar procedimentos de forma mais personalizada.
Ao mesmo tempo, inclui utilizar dados de maneira mais inteligente e acompanhar o paciente mesmo depois do término do tratamento.
Essa evolução também está presente na atuação do GRAACC. Além de investir em pesquisa e medicina de precisão, o hospital integra o Beat Childhood Cancer, consórcio internacional liderado pela Penn State University e dedicado ao desenvolvimento de novas estratégias contra o câncer infantil, incluindo medicina de precisão e imunoterapia.
Assim, pesquisa, assistência e novas tecnologias se conectam para construir o futuro da oncologia pediátrica. Como resultado, o caminho aponta para tratamentos cada vez mais individualizados e para um cuidado que acompanha o paciente em diferentes momentos da sua jornada.
A programação também conta com a participação de especialistas representantes da Sociedade Brasileira de Transplante de Medula Óssea (SBTMO), Sociedade Brasileira de Oncologia Pediátrica (SOBOPE), Sociedade Internacional de Oncologia Pediátrica (SIOP) e Sociedade Brasileira de Neurocirurgia Pediátrica (SBNPed).
Saiba mais em: https://congressograacc.com.br/graacc2026
Acompanhe a cobertura ao vivo no @instagraacc

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