O segundo dia do III Congresso Internacional de Oncologia Pediátrica do GRAACC trouxe diferentes discussões sobre os avanços no diagnóstico e no tratamento do câncer infantil. Logo pela manhã, uma das mesas abordou o retinoblastoma, tumor ocular mais comum na infância.
Ao longo das apresentações, especialistas discutiram novas tecnologias diagnósticas, genética molecular e estratégias para acompanhar a doença. Entre os destaques esteve a biópsia líquida no retinoblastoma, tema de uma pesquisa inédita desenvolvida pelo GRAACC.
Na abertura da mesa, o oftalmologista Dr. Luis Fernando Teixeira, do GRAACC, apresentou novas tecnologias e abordagens diagnósticas para os tumores oculares. Além disso, compartilhou casos clínicos para mostrar a importância de uma investigação detalhada.
“O diagnóstico não para no exame ocular. É preciso fazer uma avaliação clínica detalhada, pois é ela que vai indicar o diagnóstico exato”, comentou Teixeira.
Nesse contexto, o médico apresentou exemplos de lesões oculares que podem gerar dúvidas durante a investigação e, consequentemente, dificultar o diagnóstico.
“Uma lesão como o astrocitoma da retina pode ser confundida com retinoblastoma, especialmente em crianças e quando a lesão é atípica. Ambos podem aparecer como uma massa retiniana esbranquiçada, apresentar calcificação e, às vezes, causar descolamento da retina. O astrocitoma costuma ser benigno, pode estar associado à esclerose tuberosa e frequentemente permanece estável. Já o retinoblastoma é maligno e precisa ser investigado”, explicou o oftalmologista.
Na sequência, o Dr. Guillermo Luis Chantada, PhD em oncologia pediátrica, apresentou o tema “Redefinindo o tratamento do retinoblastoma com as novas assinaturas anatomopatológicas e genéticas”.
Durante a palestra, Chantada abordou estudos que buscaram identificar células de retinoblastoma fora do olho por meio de marcadores moleculares.
“Biologicamente, previmos que esses eram os tipos de tumores que causariam metástase e que provavelmente aumentariam a taxa de mortalidade. Entretanto, houve poucos casos com cenário de tumor extraocular”, explicou.
Dessa forma, a análise molecular surge como uma ferramenta importante para ampliar o conhecimento sobre o comportamento da doença e apoiar sua avaliação.
No terceiro momento da mesa, a Dra. Fernanda Lima apresentou os novos horizontes da genética molecular no retinoblastoma hereditário.
O retinoblastoma é um tumor da retina que geralmente aparece nos primeiros anos de vida. Em grande parte dos casos, o desenvolvimento da doença envolve alterações que comprometem as duas cópias do gene RB1 em uma célula da retina. A principal diferença entre as formas hereditária e não hereditária está em como essas alterações surgem.
Para facilitar a compreensão, podemos imaginar o gene RB1 como um freio que impede o crescimento descontrolado das células.
No retinoblastoma não hereditário, as alterações que comprometem esse “freio” surgem nas células do olho. Já no retinoblastoma hereditário, a criança nasce com uma alteração patogênica em uma das cópias do RB1 presente em diferentes células do organismo. Essa alteração pode vir do pai ou da mãe ou surgir durante a formação do embrião.
Depois disso, uma segunda alteração em uma célula da retina pode contribuir para o desenvolvimento do tumor.
“É por isso que usamos a expressão mutação germinativa: ela está presente nas células germinativas e, portanto, pode ser transmitida aos filhos. Os dados mostram que, quando há a mutação genética paterna, a chance de o filho não desenvolver o tumor é de 30%. Quando a mutação é materna, a chance de não desenvolver o retinoblastoma chega a 90%”, explicou a Dra. Fernanda.
No quarto momento da mesa, a Dra. Thais Biude apresentou uma pesquisa inédita do GRAACC que expandiu as possibilidades de monitoramento do retinoblastoma por meio da biópsia líquida.
A pesquisa, publicada na revista científica International Journal of Molecular Sciences, utiliza a análise molecular para acompanhar o tumor e pode abrir caminho para intervenções e ajustes terapêuticos cada vez mais precoces.
Na prática, a metodologia desenvolvida pelo GRAACC rastreia material genético do retinoblastoma no sangue e em outros fluidos corporais de crianças em tratamento. O estudo estabeleceu um modelo baseado em RNA para acompanhar molecularmente o comportamento do tumor ao longo do tempo.
Para identificar vestígios genéticos da doença, os pesquisadores analisaram 433 amostras de 50 crianças com retinoblastoma por meio de biópsia líquida.
A técnica utiliza fluidos corporais — nesse caso, sangue, líquor e medula óssea — para procurar sinais moleculares do tumor. Assim, os pesquisadores conseguem obter informações sem retirar diretamente tecido do tumor ocular.
“O uso da técnica é fundamental porque a biópsia direta do tumor no olho é contraindicada, devido ao risco de espalhar as células cancerígenas para fora do globo ocular, o que pode levar ao desenvolvimento de tumores em outros órgãos”, explicou a Dra. Carla Macedo, oncologista pediátrica do Hospital do GRAACC e uma das autoras do estudo.
Após a coleta, a equipe processou o material por meio do PCR digital, teste molecular de alta sensibilidade, e procurou fragmentos de RNA derivados do tumor.
“Procuramos pelo RNA que é produzido por dois genes da retina: CRX e RBP3. Como o retinoblastoma nasce na retina, as células tumorais mantêm essa identidade e, portanto, liberam o mesmo RNA”, explicou a Dra. Carla.
Em crianças sem a doença, esse material genético específico permanece dentro do olho. Por isso, quando os pesquisadores o identificam em outros fluidos corporais, ele pode funcionar como um marcador molecular do tumor.
“Essa abordagem é um grande diferencial, já que a literatura científica sobre biópsia líquida relacionada a retinoblastoma costuma focar em alterações de DNA. Escolhemos estudar o RNA porque ele permite observar de forma muito mais precisa como o câncer está se comportando e respondendo ao tratamento naquele exato momento”, destacou a oncopediatra.
Com a biópsia líquida, os pesquisadores detectaram sinais moleculares do tumor em pelo menos 32 das 50 crianças participantes. Além disso, o estudo identificou sinais do câncer em 27 amostras de medula óssea que o exame por microscopia, o mielograma, havia considerado normais.
Dessa maneira, a análise molecular acrescentou informações ao acompanhamento convencional e demonstrou maior sensibilidade para identificar determinados sinais da doença.
O modelo desenvolvido pelo GRAACC amplia as possibilidades de vigilância do retinoblastoma ao longo do tratamento.
“Ao sermos capazes de identificar traços genéticos do retinoblastoma nos fluidos corporais dos pacientes, podemos tomar decisões terapêuticas mais personalizadas e precoces”, afirmou a Dra. Carla.
Segundo a especialista, o significado da presença de RNA tumoral circulante varia conforme a etapa do tratamento.
“No início, pode ajudar a saber se o câncer já saiu do olho e se disseminou. Durante a quimioterapia, mostra que ainda há resíduos da doença, sendo necessário continuar ou intensificar as sessões. Em testes de acompanhamento após o organismo se mostrar livre do tumor, é um sinal de alerta de que ele pode retornar.”
Nesse último cenário, a equipe pode aumentar a frequência dos exames para tentar identificar uma possível recidiva o mais cedo possível e avaliar a retomada do tratamento.
Assim, a biópsia líquida aplicada ao retinoblastoma reforça o avanço da medicina de precisão na oncologia pediátrica. Ao acompanhar sinais moleculares da doença durante diferentes etapas, a tecnologia amplia as informações disponíveis para que a equipe médica avalie o comportamento do tumor e defina estratégias cada vez mais individualizadas.
A programação também conta com a participação de especialistas representantes da Sociedade Brasileira de Transplante de Medula Óssea (SBTMO), Sociedade Brasileira de Oncologia Pediátrica (SOBOPE), Sociedade Internacional de Oncologia Pediátrica (SIOP) e Sociedade Brasileira de Neurocirurgia Pediátrica (SBNPed).
Saiba mais em: https://congressograacc.com.br/graacc2026
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Por Andréa Garbim

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