O tratamento da leucemia pediátrica passa por mudanças importantes. Durante décadas, a quimioterapia ocupou papel central nas estratégias terapêuticas. Agora, novas possibilidades de imunoterapia e ferramentas de diagnóstico ampliam as alternativas para crianças e adolescentes com a doença.
Estudos apresentados durante o congresso apontaram benefícios do blinatumomabe em comparação à quimioterapia convencional, incluindo aumento da sobrevida e menor ocorrência de eventos adversos.
Nesse cenário, especialistas discutem como incorporar essas novas possibilidades à prática clínica e como escolher a estratégia mais adequada para cada paciente.
Essas transformações estiveram no centro da mesa “Mudando Paradigmas na Leucemia Pediátrica”, realizada durante o III Congresso Internacional de Oncologia Pediátrica do GRAACC.
As Dras. Ana Virginia Lopes de Sousa e Isabella Tomé Sant’Anna coordenaram o encontro, que reuniu especialistas do Brasil, Estados Unidos e Canadá. As discussões abordaram diferentes cenários da leucemia linfoblástica aguda (LLA) e da leucemia mieloide aguda (LMA) em crianças e adolescentes.
Entre os temas da programação, o Dr. Sumit Gupta, do Canadá, discutiu a integração da imunoterapia ao tratamento de primeira linha da LLA.
Durante a apresentação, o especialista abordou o avanço de novas estratégias terapêuticas e o potencial de medicamentos como o blinatumomabe para ampliar as possibilidades de tratamento e reduzir a dependência da quimioterapia convencional.
Na prática, o blinatumomabe é uma imunoterapia que ativa o sistema imunológico para reconhecer e atacar células leucêmicas B em pacientes com leucemia linfoblástica aguda.
Assim, a incorporação dessa estratégia amplia as possibilidades disponíveis para o tratamento da leucemia pediátrica.
Nos casos de LLA em recidiva, ou seja, quando a doença retorna após um período de remissão ou controle, os médicos também contam com novas possibilidades terapêuticas.
Nesse contexto, o Dr. Raul Ribeiro, dos Estados Unidos, apresentou aspectos práticos para a escolha entre terapia CAR-T, transplante de células-tronco hematopoéticas e anticorpos biespecíficos.
“As imunoterapias estão sendo usadas não apenas como alternativa à quimioterapia, mas também como estratégia para reduzir rapidamente a carga da doença e preparar o paciente para tratamentos potencialmente curativos, como transplante ou CAR-T”, ressalta Raul.
Dessa forma, a escolha da estratégia considera o cenário clínico e os objetivos do tratamento de cada paciente.
A programação também abordou um dos cenários mais desafiadores da leucemia pediátrica: o tratamento da LLA em lactentes.
A Dra. Lilian Maria Cristofani discutiu como avanços recentes podem contribuir para a revisão das estratégias terapêuticas utilizadas nesse grupo de pacientes.
Durante a apresentação, Lilian mostrou resultados promissores de um estudo com o uso do blinatumomabe em lactentes. Os dados associaram a imunoterapia ao aumento da sobrevida desses pacientes.
Assim, o medicamento também ganha espaço nas discussões sobre novas possibilidades de tratamento para grupos que apresentam desafios específicos.
Além das novas terapias, a mesa destacou o papel das ferramentas de diagnóstico na definição das estratégias de tratamento.
Charles Mullighan, membro do Departamento de Patologia do St. Jude Children’s Research Hospital, abordou o uso do sequenciamento de nova geração (NGS) e de outras abordagens para investigar a resistência terapêutica na LLA e na LMA pediátricas.
Nesse sentido, as informações moleculares ajudam a ampliar o conhecimento sobre a doença e oferecem novos elementos para orientar as decisões clínicas.
Para Isabella Sant’Anna, coordenadora da mesa, os avanços no tratamento da leucemia pediátrica envolvem não apenas a chegada de novas terapias, mas também a revisão das estratégias que os profissionais já utilizam na prática clínica.
O blinatumomabe é um exemplo dessa transformação. No Brasil, o uso do medicamento é aprovado para pacientes em recidiva. No GRAACC, porém, a equipe já utiliza a imunoterapia como primeira linha de tratamento em alguns pacientes.
“Hoje, no GRAACC, conseguimos utilizá-lo como primeira linha de tratamento em alguns pacientes. Somos uma das poucas instituições que mantêm essa estratégia na primeira linha. Nosso objetivo é ampliar cada vez mais a incorporação desse medicamento à nossa prática clínica. Por isso, foi muito importante promover discussões com convidados que vivenciam, na prática, o uso do blinatumomabe”, comentou.
Portanto, a imunoterapia se consolida como uma das frentes de avanço no tratamento das leucemias pediátricas. Ao mesmo tempo, recursos como CAR-T, transplante, anticorpos biespecíficos e sequenciamento genético ampliam as possibilidades de cuidado.
Com isso, especialistas podem combinar diferentes conhecimentos, tecnologias e modalidades terapêuticas para definir estratégias que considerem tanto as características da doença quanto as necessidades de cada paciente.
A programação também conta com a participação de especialistas representantes da Sociedade Brasileira de Transplante de Medula Óssea (SBTMO), Sociedade Brasileira de Oncologia Pediátrica (SOBOPE), Sociedade Internacional de Oncologia Pediátrica (SIOP) e Sociedade Brasileira de Neurocirurgia Pediátrica (SBNPed).
Saiba mais em: https://congressograacc.com.br/graacc2026
Acompanhe a cobertura ao vivo no @instagraacc
Por Mayara Rabelo

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